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quinta-feira, 7 de julho de 2011

A alegria na tristeza

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.

Martha Medeiros

sábado, 14 de março de 2009

Dia Internacional do Homem

"Qualquer data serve, 14 de abril, 20 de agosto, 17 de novembro. Em breve, os homens irão monopolizar-se pela criação do seu dia, onde encontros, seminários e homenagens serão realizados no mundo inteiro, chamando a atenção para essa classe oprimida.

Não anda fácil ser homem. Eles trocam fraldas, levam os filhos ao parque, participam de reuniões escolares, saem de férias com a garotada, e tudo isto, veja bem, sem ver a cor de um contracheque. Nem décimo terceiro, nem fundo de garantia. Remuneração zero.

Por isso, além das lides do lar, os moços trabalham fora. E ai deles se fracassarem. Precisam ser durões, competitivos, enérgicos. Nem pensar em chegar atrasado por causa de uma cólica intestinal ou sair de uma reunião aos prantos. Tem uma fila de desempregados lá fora com a senha na mão para assumir o posto.

No amor, a opressão é ainda maior. Os homens que não casam são marginalizados pela sociedade. São vistos como playboys, filhinhos da mamãe ou bichas enrustidas. Casam-se, então. E surpresa: até que é bom! Mas não dá para confiar nas mulheres. Mais cedo ou mais tarde elas começam a se queixar da monotonia, da rotina sexual, da falta de liberdade e pedem o divórcio sem dar aviso prévio, deixando o pobre com uma mão na frente e outra atrás. Elas levam o apartamento, os filhos, os amigos, boa parte da renda familiar e o conhecimento integral de como funciona a engrenagem doméstica. Ficam os homens sem saber como ligar a torradeira e em pânico quando a faxineira diz que precisa de material. Do que você precisa, santa? Fita isolante, pregos, disquetes? Não senhor: água sanitária, sabão em pó, amoníaco, vassoura, óleo de peroba. Dá para escutar os gritos dele lá da outra quadra.

É barra. Os homens morrem e deixam uma herança de fama e fortuna às suas viúvas e namoradas. Agora diga aí que homem, viúvo de mulher famosa, foi convidado para posar nu ou escrever uma biografia.

Homens não podem engravidar. Homens têm uma expectativa de vida menor. Homens pagam mais consumação em bares e boates. Homens pagam mais seguro. Homens têm menos alternativas para se vestir. Homens não usam maquiagem. Homens não têm cintura. Homens expressam seus sentimentos com dificuldade. Homens são mantidos como reféns. Homens afundam com os navios.

Não bastasse essa discriminação toda, eles agora estão prestes a ser descartados daquela que é sua maior contribuição à sociedade, a reprodução.

Oh, Dolly!

Dia Internacional da Mulher é um acinte. Um deboche. Uma provocação. Já teve sentido, não há mais. Mulheres verbalizam tudo, conversam pra caramba, trocam experiências, debatem, riem, se divertem, todo santo dia. Chega. Passemos a palavra."

(Martha Medeiros, março de 1997)