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quinta-feira, 12 de abril de 2012

O 11o Mandamento

Um romance tão abrangente que torna impossível resumí-lo. Uma história de amor que te levará ao coração da Etiópia, da medicina e de personagens inesquecíveis (especialmente Ghosh). Uma obra prima de Abraham Verghese. Leitura obrigatória.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Agassi

Uma única palavra: LEIA!

sábado, 4 de setembro de 2010

Biografia Secreta

Quando eu era menina,
Meus sapatos nunca serviam;
Bolhas de um rosa vivo nos calcanhares.
Não me lembro: será que meus sapatos
eram muito apertados
ou eram grandes demais?

Com o chapéu nas mãos, os coitados dos meus pais
perguntavam ao médico: "Tudo certo com ela?"
"Problema com os pés", dizia o médico.
"O defeito é grave."
E assim meus pais gastavam seu dinheirinho
em sapatos reforçados
para os pés defeituosos.
O médico ameaçava:
"Ela nunca mais pode andar descalça!"

Nos sapatos de chumbo, eu acidentalmente atingia
o lado de dentro dos tornozelos
ao correr ou andar -
os sapatos faziam meus joelhos baterem um no outro,
com os ossos estalando, os tornozelos sangrando.
Mas sem aqueles sapatos, sem nenhum sapato,
os cachorros e eu corríamos como o vento.

Toda criança tem uma vida secreta
longe dos adultos.
E assim, no verão ou na neve,
não fazia diferença, eu escapulia
para uma das verdes salas do trono
na floresta, e lá eu desatava
os mil cordões dos sapatos de ferro,
fazia força para abrir os canos altos e duros,
e arrancava aqueles sapatos de duzentos quilos
que poderiam atingir e matar uma mula.
E então eu só ficava ali sentada,
uma menininha cantando alto lá-lá-lá
enquanto meus pés balançavam descalços, a escutar.

Forçada de volta
àqueles sapatos ano após ano,
foi então que comecei a planejar
amputar meus pés
só para ver o médico desmaiar,
só para refletir sua visão brutal
de como deveriam ser pés "sem defeito".
"Não andará direito
pelo resto da vida", disse ele.
"É grave. Muito grave", disse ele.
Uma vez ouvi uma mãe rica
dizer à filha toda arrumadinha
num banheiro público
onde se pagava dez centavos
para usar o sanitário limpo
em vez de sujo:
"Não deixe seus pés se alargarem;
use sapatos o tempo todo,
até quando for dormir...
Não tenha pés comuns",
aconselhou a mãe.
Fiquei cismada... "Mas
o pé comum é tão...
bem, é tão bom ele ser comum, não é mesmo?"

"Não! Ela não tem arco nenhum", disse o médico...
"É grave. Muito grave", disse ele.
Aqueles sapatos de ferro... para impedir
meu arco de tocar no chão
"... como uma índia de pés chatos", disse ele.
"Mas meus antepassados", murmurei...
"Eu sou uma índia de pés chatos", disse eu.
E mais tarde, já adulta, ao ver
minhas ancestrais
e seus pés de solas gordas,
eu soube que meus pés foram criados
para andar por campos de lavoura,
para cobrir quilômetros na terra batida no escuro,
para ingerir nutrientes da terra
direto através das solas,
e para andar empertigada, deslizar
e girar na roda de dança.

Mas naquela época, nas chamadas
"boas maneiras do interior",
os pés das mulheres
costumavam ser criados para tornarem-se
pequenos sacrifícios humanos,
mantidos pequenos demais,
não sem peias,
mas, de certo modo, sem pés.
Incapazes de correr
morro acima,
morro abaixo ou
... de fugir.
Revela-se...
que era exatamente esse o objetivo.

Mas meus pés fugiram comigo
neles de qualquer modo.
E hoje, nada de sapatos reforçados
para me fazer "andar direito",
pois com eles ou sem eles, não importa,
eu nunca andei direito;
... até mesmo hoje, seguindo pela rua,
eu dou uma guinada,
de repente querendo ver alguma coisa,
me juntar àquela marcha,
recuperar essa noite,
falar com alguma pessoa ou algum bicho,
fazer um desvio até uma flor que cresce
através das pedras,
abaixar para falar com uma criança
sobre a ocupação importantíssima
de caçar coelhos para obter créditos acadêmicos,
ou só parar e balançar diante de um amado.
Meus pés e pernas pertencem Àquele que Dança
que também possui meus quadris...
e os sapatos corretivos não
corrigiram nada
que fosse mais necessários para minha Alma.
Todos os ritmos mais importantes,
os jeitos de parar e os passos largos
permanecem "sem conserto".

Agora, acho que os sapatos talvez sejam
uma das minhas formas cruciais de arte.
Espero que por fim seja aceitável
que eu com frequência use
os tipos de sapatos mais descabidos
e às vezes irreverentes
que sejam possíveis. Por favor,
posso ver os pretos
com rosas vermelhas, aqueles
com tiras que se enrolam e se enrolam no tornozelo,
aqueles com laços atrevidos no calcanhar,
minhas botas de motociclistas com biqueira de aço
ou os mocassins de camurça que me deixam
sentir até uma simples semente debaixo da sola?
Acho que por fim chegou a hora
- e sem consultar qualquer médico -
em que posso também andar descalça
sempre que possível,
para que eu realmente possa enxergar e ouvir...

(Retirado do livro A Ciranda das Mulheres Sábias, de Clarissa Pinkola Estés que fala sobre...)

Ser jovem enquanto velha,
velha enquanto jovem

(pois...)

Quando uma pessoa vive de verdade,
todos os outros também vivem.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pérolas de Bussunda

(trechos do livro Bussunda, de Guilherme Fiuza)
"Nos primeiros tempos da vida universitária, perfeitamente ambientado, ele comentara com Luiz Noronha (...):
- Estou gostando muito da faculdade. Vou ficar uns vinte anos aqui."

(no relatório do jornal Casseta)
"... a Divisão de Vídeo poderia ter ido bem, não fosse o fato de ter ido muito mal. (...) o setor de Eventos Especiais, felizmente, não apresentou resultados negativos em 1986, talvez pelo fato de ter sido desativado em 1981".

(sobre uma fã enlouquecida que berrava por ele de madrugada na frente do hotel)
"- Diz a ela que sexo pra mim é que nem videogame, muito complicado. Eu nunca passei da fase um."

"- Bussunda, se a gente ficar rico, qual sonho de consumo você vai realizar primeiro? - quis saber Claudio Manoel.
- Eu quero ter 40 mil pares de sandália Havaiana."

"- Qual o lugar mais estranho em que você já fez amor?
- São Paulo."

"Em vez de subir à cabeça, a fama desceu-lhe à barriga. Aos jornalistas que lhe perguntavam por que ele se destacava do grupo, revelava:
- Porque sou o mais gordo."

"Bello quis saber quem era o mais assediado dos cassetas. Bussunda contou:
- O Hubert é o bonito do grupo, né? Aliás, o meu problema com o Hubert é esse: ele malha muito, faz dieta, e o resultado não me anima nem um pouco."

"Se os pais tivessem conseguido 'consertá-lo' na adolescência, certamente não teria chegado aonde chegara. Mas jamais se sentira um rebelde, ou um indignado contra o sistema:
- O sistema funciona para formar um tipo de pessoa que eu não sou (...)"

Ainda bem que o sistema permite que pessoas como o Bussunda apareçam de vez em quando. A vida fica muito mais divertida.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia do Professor

O trecho abaixo foi retirado do livro A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery (Companhia das Letras, 2008), e narra o primeiro encontro da protagonista Renée com uma professora.

"Na nossa casa ninguém conversava. As crianças berravam, e os adultos se ocupavam de suas tarefas como teriam feito na solidão. Comíamos o suficiente para matar a fome, embora frugalmente, não éramos maltratados, e nossas roupas de pobres eram limpas e solidamente remendadas, de tal modo que, embora pudéssemos nos envergonhar, não sofríamos de frio. Mas não falávamos.

A revelação aconteceu quando, aos cinco anos, indo à escola pela primeira vez, tive a surpresa e o pavor de ouvir uma voz se dirigir a mim e dizer meu nome de batismo.

"Renée?", interrogava a voz enquanto eu sentia a mão amiga sobre a minha.

Foi no corredor onde, para o primeiro dia de escola e porque chovia, tinham amontoado as crianças.

"Renée?", a voz continuava a modular, vinda do alto, e a mão amiga não parava de exercer em meu braço - incompreensível linguagem - leves e suaves pressões.

Levantei a cabeça e, num movimento insólito que quase me deu tonteira, cruzei com um olhar.

Renée. Tratava-se de mim. Pela primeira vez alguém se dirigia a mim dizendo meu nome de batismo. Ali onde meus pais recorriam a um gesto ou uma bronca, uma mulher, que agora eu achava que tinha os olhos claros e a boca sorridente, abria caminho para o meu coração e, ao pronunciar meu nome, estabelecia comigo uma proximidade da qual até então eu não fazia idéia. Olhei ao redor do mundo que, subitamente, se enfeitou de cores. Num raio doloroso, percebi a chuva que caía lá fora, as janelas lavadas pela água, o cheiro das roupas molhadas, a estreiteza do corredor, uma tripa onde vibrava os grupos de crianças, a pátina dos porta-casacos de bolotas de cobre onde se amontoavam pelerines de lã ordinária - e a altura dos tetos, na medida do céu para um olhar de criança.

Então, meus tristonhos olhos cravados nos dela, agarrei-me à mulher que acabava de me fazer nascer.

(...)

"E esses olhos tão bonitos", me disse também a professora, e tive a intuição de que ela não mentia, que naquele instante meus olhos brilhavam com toda essa beleza e, refletindo o milagre de meu nascimento, cintilavam como mil fogos.

Comecei a tremer e procurei nos dela a cumplicidade que gera a alegria partilhada."

Aos nossos professores nosso agradecimento por partilharem conosco e com seus alunos muito mais do que alegria.

domingo, 14 de junho de 2009

Entre os muros da escola (Editora Martins Fontes)

Anote o nome deste livro de François Bégaudeau, um escritor francês que já emplacou dois romances de sucesso. Aos que dominam o idioma, sugiro que leiam em francês (Entre les murs), pois a estória enquadra o mundo escolar do ponto de vista de um jovem e desajeitado professor de francês.

O cenário é uma escola de periferia de Paris, e os conflitos e as dificuldades dos professores, funcionários e alunos servem para reflexão e, em alguns momentos, para inspiração. Num desses momentos (trecho abaixo), o 'prô', diminutivo (carinhoso ou jocoso) usado pelos alunos, de forma poética, leva a turma a uma reflexão sobre o terrorismo (importante dizer que há chineses, árabes e muçulmanos na sala, além de franceses). Leitura obrigatória.

"- Prô, podemos falar dos atentados?

- Para dizer o quê?

- Não param de dizer que são os muçulmanos, mas na verdade, ninguém tem certeza.

- No entanto, há grandes chances, não?

Mohammed-Ali e Soumaya subiram pelas paredes, misturando vociferações.

- Por que dizem que são os muçulmanos? Enquanto não tiverem provas, eles têm mais é que calar a boca, é isso, não tem outro jeito.

- E então, o que isso muda?

Mohammed-Ali havia escapado do pelotão vingativo.

- O que muda é que ninguém sabe.

Soumaya voltou ao mesmo disco.

- Até o 11 de setembro, ninguém sabe.

Imane entrou na conversa.

- Eu fiquei contente no 11 de setembro. Contente de poder lutar.

- Três mil mortos e você ficou contente?

Mohammed-Ali recomeçou.

- Eh, prô, tem que ver também todos os mortos que os americanos fizeram na Palestina e tudo.

- Sim, enfim, admito, mas não podemos ficar eternamente na espiral da vingança.

- Mas os americanos matam os muçulmanos, é normal os muçulmanos se defenderem.

- Mesmo matando qualquer um?

Zunzum contraditório, mas eu só ouvia a mim mesmo.

- É isso, eu me chamo Pepita, tenho vinte e quatro anos, moro na periferia de Madri. Tenho dois filhos pequenos, trabalho em Madri, então me levanto às seis horas para pegar o trem. E acontece que no ano passado eu também me manifestei contra a guerra no Iraque e contra o meu governo, aliado dos americanos na invasão ilegal de um país. Então, como todas as manhãs eu pego o trem, penso em tudo isso, nos meus filhos, na guerra e tudo o mais, e bum, estou morta.

Como num passe de mágica, minhas palavras tinham fabricado silêncio. Embriagado por esse triunfo, continuei.

- Igualzinho a mim. Acontece que sou um pouco como Pepita, pego o metrô de manhã, pego até três para chegar aqui, e acontece que também sou contra a lei da burca. Ora, parece que tem uns sujeitos que querem explodir bombas na França para derrubar essa lei. Essa é a questão, vou morrer numa explosão por causa de uma lei que não cauciono. Legal, não?

A magia durava. No silêncio, a voz de Sandra soou estranhamente. Excepcionalmente doce. Desligada. Acústica.

- O que quer dizer 'caussono'?

- Caucionar significa estar de acordo, aprovar.

- Sim, mas se os franceses não dizem que não aprovam, é como se estivessem de acordo. O senhor disse que não está de acordo?

- Mais ou menos.

- Mais ou menos quer dizer que ninguém ouviu o senhor e então os muçulmanos não podem saber."

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Globalização

Um gato vivia correndo atrás de um rato, mas nunca conseguia agarrá-lo.

Cansado dessas técnicas tradicionais, o gato decidiu inovar e, para isso, iniciou sua perseguição como de costume. E o rato, como sempre fazia, corria e entrava em sua toca.

O gato, disposto a apanhar o rato com sua nova técnica, ficou escondido do lado de fora da toca do rato e se colocou a imitar o latido de um cachorro.

O rato, lá dentro, ouviu os latidos e logo pensou: "Bom, se o cachorro está latindo é porque viu o gato, e o gato, naturalmente, já foi embora". Confiante em tal pensamento, o rato saiu de sua toca. O gato, por sua vez, não perdeu tempo e, de surpresa, agarrou o rato. Quando já estava quase devorando o pequeno rato, este perguntou-lhe:

- Só um momento, senhor Gato, gostaria de saber onde está o cachorro, pois eu o ouvi latindo.

O gato, com olhar cínico, respondeu-lhe:

- Neste mundo globalizado, quem não falar duas línguas não sobrevive.

(retirado do livro As Parábolas na Empresa, de Alexandre Rangel, Editora Leitura, 2006)