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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sinto-me só


Como seria ter um irmão autista numa época em que pouco (ou nada) se sabia sobre isso?

Como seria ter um irmão e, ao mesmo tempo, não tê-lo?

"Tenho 5 anos, você tem 3. Eu sei ler, você não sabe falar. Eu sei amarrar meus sapatos, você não consegue calçar uma meia. Você ainda dorme no berço.

Não pode vir comigo. Quanto mais crescemos, mais nos afastamos."

"Quando vamos ao supermercado e você fica sentado no carrinho, mulheres param meu pai para dizer que você é simplesmente lindo."


"É como um truque, essa beleza que seduz tanto professores, especialistas, psiquiatras e até os familiares (...)"


"Mas você não me engana. É meu irmão. E meu rival. E posso sentir o ambiente se inclinando para você sempre que entra nele, toda atenção e amor de nossos pais escoando em sua direção, sem nunca ser retribuído. Você possui uma gravidade desproporcional para o seu tamanho. E talvez essa indiferença com sua própria importância o torne ainda mais amado. Estou aprendendo que não posso competir com você; apesar de ser mais velho, maior, mais esperto, mais rápido, vou perder todas as disputas pelo tempo e pela atenção de nossos pais."

"Noah é a razão que nos fez mudar de Nova York. Por causa dele, nossa casa é uma eterna bagunça, nossa mobília está sempre suja, o veludo do sofá é duro de saliva seca. Ele é a razão pela qual nossos lençóis têm os cantos desfiados, onde ele os mastigou, os livros não têm todas as páginas, porque ele as arrancou, meus tanques de plástico estão amassados e meus soldados da infantaria (dos quais ainda gosto muito, mesmo aos 14 anos) têm marcas de dentes, e nossas janelas estão sempre embaçadas com o resíduo de seu cuspe. Ele é o motivo pelo qual não podemos sair de férias, por que ninguém pode dormir até tarde, por que não posso me sentar para assistir à tevê com um saco de batatas fritas, porque, se me vê, ele quer o pacote inteiro. Tudo sempre gira em torno de Noah, por causa de Noah. Sem dizer uma única palavra, ele dita os termos de nossa vida."

"Não conheço Noah. Suspeito que é impossível conhecê-lo. Mas ele segue sendo o centro de minha vida.

Eu o odeio por isso.

Se pudesse, nunca escreveria sobre ele, não falaria sobre ele, diria a todos que me perguntassem que sou filho único.

Mas ele é meu irmão.

Tenho pavor dos telefonemas de meus pais. Ele atacou outro cliente. (...) Foi espancado. Tem um olho roxo, um dente quebrado, outra cicatriz sem explicação. Esses telefonemas me lembram. Eles me fazem sentir impotente porque Noah é impotente.

(...) sinto a realidade de Noah invadindo-me e o peso da preocupação com ele retornando. A menos que me disponha a afastar-me, simplesmente fechar meu coração para ele, compreender por que ele está onde está é tão inútil quanto calcular a temperatura exata enquanto você está morrendo congelado. É informação, mas é inútil."

Sinto-me só. Karl Taro Greenfeld, Editora Planeta, 2009

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Carteiro e o Poeta

(Beatriz conta à mãe que Mário lhe recitou poesia e lhe disse algumas metáforas)

- "Filhinha, não me conte mais. Estamos diante de um caso muito perigoso. Todos os homens que primeiro tocam com a palavra, depois chegam mais longe (...).
- Mas o que é que tem de mau as palavras?! - disse Beatriz, abraçando o travesseiro.
- Não há droga pior que o blablablá. Faz uma estalajadeira na aldeia se sentir uma princesa veneziana..."

(O carteiro está desesperado, pois a mãe de Beatriz não permite que eles se encontrem. Procura então Pablo Neruda para pedir-lhe ajuda)

- "Poeta e companheiro - disse decidido. - O senhor me enfiou neste embrulho e o senhor daqui vai me tirar. O senhor me deu seus livros de presente, ensinou-me a usar a língua para algo mais que pregar selos. O senhor tem culpa de que eu me tenha apaixonado.
- Não senhor! Uma coisa é eu ter dado de presente a você um par de meus livros, e outra bem distinta é que eu tenha autorizado você a plagiá-los. Além do mais, você deu a ela o poema que eu escrevi para Matilde.
- A poesia não é de quem escreve, mas de quem usa!
- Alegra-me muito essa frase tão democrática, mas não levemos a democracia ao extremo de submeter a uma votação dentro da família para saber quem é o pai."

(Antonio Skármeta, Editora Record, 23a edição)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A Vida Secreta de uma Mãe Caótica

Imagine Bridget Jones casada e com três filhos: esta é Lucy Sweeney, protagonista deste livro de Fiona Neill (Editora Record). Na verdade, Lucy é ainda mais divertida, mais esquecida, mais estabanada e muito mais inteligente do que a primeira. Ela tem que fazer um verdadeiro malabarismo para dar conta dos três filhos, do marido, da casa e dos próprios sentimentos que, diga-se de passagem, estão em polvorosa.

Para tornar tudo mais interessante, ela tem um irmão psicólogo muito simpático e se envolve nos trabalhos escolares com um grupo de pais que vai deixá-la a beira de uma crise ainda maior.

Um dos livros mais divertidos dos últimos tempos. Se você tem o hábito de ler na esteira enquanto se exercita, é melhor tomar cuidado, pois os ataques de riso podem transformar sua atividade física num desastre.

Abaixo, alguns momentos do livro, para dar água na boca:

"Um marido surdo e uma esposa cega sempre formam um casal feliz"

(Lucy está dirigindo e o filho lhe pergunta sobre um trabalho que acaba de fazer)
"- Mãe, ter terminado isso se qualifica como um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade? - pergunta Sam no banco traseiro. (...)
- Alguma coisa assim - respondo, (...)
- Por que você sempre diz "Alguma coisa assim"? As coisas não são ou certas ou erradas?"
- A vida é principalmente cinza - digo a ele. - Há poucos momentos de preto e branco.
- A menos que você seja uma zebra - diz Joe."

(quando Lucy e o marido conseguem uma noite de folga)
"Quando fechamos a porta da casa atrás de nós, tenho aquela sensação de leveza que acompanha o ato de asusmir a retaguarda por algumas horas, e Tom, animado por pensamentos semelhantes, estende a mão, e eu a seguro. O tempo que passamos juntos é algo precioso, e a idéia de simplesmente ser, em vez de fazer, é uma sensação que ambos saboreamos. Damos alguns passos em harmonia silenciosa, e sinto uma onda de otimismo de que meu perturbado equilíbrio poderia ser restaurado se nós dois simplesmente tivéssemos mais tempo a sós. Talvez por um minuto, eu me reconecto com um tempo anterior às crianças, quando éramos só Tom e eu, quando podíamos ficar na cama nos finais de semana, ler todos os jornais e viajar. Então me dou conta de que o carro desapareceu."

(Lucy conversando com a mãe)
"- E então, Lucy, quando você vai conseguir um bom trabalho? - ela pergunta.
- Eu tenho um bom trabalho - digo. - Cuidar dos filhos é um bom trabalho.
- É trabalho duro e gratuito - ela diz.
- Eu não poderia concordar mais com você - retruco. - Mas eu poderia jurar que, tendo em vista as suas inclinações políticas, você seria a última pessoa a julgar o valor de uma pessoa baseada no tamanho de seu salário. O fato de eu não ganhar dinheiro não quer dizer que o que eu faço não tenha valor.
- Eu não acredito que uma filha minha tenha escolhido ser dona de casa - ela diz, com a boca se contorcendo, como se a palavra tivesse um gosto amargo.
- Na verdade, mãe, parte do problema está em feministas como você, porque, ao enfatizar em excesso a importância de uma mulher trabalhar, vocês desvalorizam completamente a vida doméstica (...)
- O que eu quero dizer é: quando você vai fazer alguma coisa que envolva o seu cérebro? - ela continua.
- Bem, esta é uma questão diferente. Eu uso o meu cérebro, só que de uma forma lateral, menos óbvia. (...)
- Mas você se sente realizada, Lucy? (...)
- No fim do dia, eu frequentemente me sinto como se não tivesse conquistado nada - digo a ela. - Um dia bem-sucedido consiste em manter o status quo. Eu consegui levar três crianças à escola e à creche e buscá-las sem qualquer contratempo significativo. Preparei três refeições, dei banho em três meninos e li histórias para fazer todos dormirem. Quando comparo isso com o que estava fazendo antes, parece absurdo, particularmente porque não pareço estar melhorando nem um pouco.
- Mas você fica à vontade com seus filhos. Não acho que algum dia tenha me sentido assim..."

(conversando com o pai de um colega que é um famoso ator de cinema)
"- Estou implodindo, Sweeney - ele diz. Ele faz um som semelhante a uma bomba explodindo. (...) - Minha mulher foi embora. Levou as crianças junto com ela para os Estados Unidos. Minha filha mais nova perguntou se eu estava num estábulo.
- O que ela quis dizer com isso? - pergunto.
- Instável - ele diz. (...) Não há nada como as crianças para nos fazer pôr os pés no chão (...). Às vezes você não sabe o que tem até perder. Pessoas que não sabem o que querem são perigosas, Lucy. Dispensei meu psiquiatra, a propósito. Decidi que ele era parte do problema."

quarta-feira, 24 de março de 2010

Para Sempre Alice

Alice é uma mulher brilhante, professora e pesquisadora da universidade de Harvard, tendo sempre se destacado em sua área. Sua vida foi construída com base em planejamento e dedicação acadêmica. Alice acreditava que tinha tudo sob controle, até o dia em que é diagnosticada com Alzheimer de instalação precoce e sua vida vira do avesso. Alice terá que reinventar, a cada dia, a própria vida e terá que conviver com a única certeza que parece lhe restar: a de que ela não será a mesma pessoa daqui a um mês.

Essa é a estória de 'Para Sempre Alice', de Lisa Genova (Editora Nova Fronteira, 2007). Um livro inesquecível.

"Alice contemplou as fileiras de livros e periódicos em sua estante, a pilha de provas finais na escrivaninha, os e-mails em sua caixa de entrada, a luz vermelha piscante da secretária eletrônica. Pensou nos livros que sempre quisera ler, os que adornavam a prateleira superior da estante de seu quarto, aqueles para os quais havia imaginado que teria tempo depois. Moby Dick. Alice tinha experimentos a conduzir, artigos a escrever e palestras a dar e a que assistir. Tudo o que fazia e amava, tudo o que ela era exigia a linguagem.
(...)
Ficou imaginando quando chegaria o momento em que não se lembraria.(...) Sabia que, um dia, olharia para o marido, os filhos e os colegas, para rostos que havia conhecido e amado durante a vida inteira, e não os reconheceria.
(...)
Digitou as palavras 'doença de Alzheimer' no Google. Estava com o dedo médio pousado sobre a tecla 'enter' quando duas batidas causaram-lhe um sobressalto, fazendo-a abortar a missão na velocidade de um reflexo involuntário e esconder as provas.
(...)
- Está pronta? - perguntou John.
Não, não estava. (...) Não estava pronta para se entregar. Ainda não."

domingo, 11 de janeiro de 2009

Para gostar de ler (nas férias)

Para aqueles que gostam de ler mas nem se lembram mais do nome do último livro que leram, para os que se lembram e o nome é "Poliana", para os que já estão enjoados com a falta do que fazer nas férias e para os que estão sempre lendo, algumas dicas boas de leitura:

1) Pippi Meialonga, de Astrid Lindgren, Companhia das Letrinhas, 2008 - para crianças - Pippi Meialonga é uma menina diferente e cheia de idéias malucas. Este livro é um clássico internacional e acaba de ser lançado no Brasil. Imperdível.

2) A Garota Americana e O Garoto da Casa ao Lado, Meg Cabot, Record, 2004 - Para adolescentes - como todos os livros da Meg Cabot, são duas estórias muito divertidas que envolvem paquera, aventura e fáceis de ler.

3) Crepúsculo e Lua Nova, Stephenie Meyer, Editora Intrínseca, 2008 - para adolescentes e jovens - nova séria que é a sensação do momento. O filme do primeiro livro já está no cinema. Um amor impensável entre uma humana e um vampiro. (Confesso que peguei pra ler com desconfiança - vampiros!?!?! Que coisa mais sem pé nem cabeça!!!) Mas é irresistível. E a estória continua num terceiro livro (Eclipse). A autora já é considerada a sucessora de J. K. Rowling (autora da série do Harry Potter).

4) Fala Sério, Mãe! e Fala Sério, Professor!, Thalita Rebouças - para adolescentes - todos os dois contam a estória de Malu, uma adolescente como outra qualquer mas que tem uma mãe superprotetora e, como ela mesmo diz, totalmente "zen noção". São pra rir muito e prepare-se para dar vexame nas salas de espera. A autora é escritora especializada em adolescentes e já escreveu vários outros livros.

5) Melancia e Férias, Marian Keyes, Bertrand Brasil, 1997 - para jovens e adultos - duas estórias sobre a mesma família. Melancia tem como foco uma jovem grávida que ao dar a luz é abandonada pelo marido que não se sente preparado para ser pai. Férias conta a história da irmã desta, que é convencida pela família a se internar numa clínica de desintoxicação, acreditando ser um spa cinco estrelas. Marian Keyes é autora premiada internacionalmente e já escreveu vários outros livros (Los Angeles, Casório, etc.). Difícil parar de rir.

6) Na Toca dos Leões, Fernando Morais, Editora Planeta do Brasil. 2005 - para jovens e adultos - conta a história da W/Brasil e da trajetória do Washington Olivetto, conhecido como o publicitário mais importante do país. Leitura obrigatória a todos da área de comunicação social e afins.

7) Doidas e Santas, Martha Medeiros, C&PM Editores, 2008 - para jovens e adultos - seleção de crônicas da Martha Medeiros. Leitura ideal para aqueles que não têm muito tempo. Uma crônica por dia, melhor do que ter "Poliana" como último leitura. Martha Medeiros é colunista do Jornal O GLOBO e também escreve poesia. Seu livro Poesia Reunida (1999) é outra pérola.

8) Crianças do Consumo - A Infância Roubada, Susan Linn, Instituto Alana, 1994 - para pais e educadores - Susan Linn explica como a publicidade trabalha (dia e noite) para seduzir crianças, adolescentes e jovens a comprarem seus produtos e o que podemos fazer para 'remar contra a maré'.

9) André Midani - Música, Ídolos e Poder - Do Vinil ao Download, Nova Fronteira, 2008 - autobiografia do homem responsável pelo sucesso da MPB. Para quem gosta de música e de histórias sobre ídolos, um livro absolutamente fantástico.

10) Falcão - Meninos do Tráfico, MV Bill e Celso Athayde, Objetiva, 2006 - para jovens e adultos - e para quem tem estômago para enfrentar a realidade dos jovens que trabalham com o tráfico de drogas. Um livro forte, mas necessário.

11) Marilyn - Retrato de uma Estrela, Marie-Magdeleine Lessana, Jorge Zahar Editor, 2005 - para jovens e adultos - Não se trata de "mais uma biografia" de Marilyn Monroe. É uma análise, não do mito, mas da pessoa que ela foi, da sua correspondência e da sua relação com seu analista e da sua personalidade conturbada. Traz uma nova versão sobre a sua morte, muito polêmica, por sinal, envolvendo o presidente Kennedy e seu irmão. Muito, muito bom.

12) Para Francisco, Cristiana Guerra, Saraiva, 2008 - para todos - dispensa comentários. Já falamos sobre ele neste blog. Um livro para ler e reler muitas vezes.

That's all folks!!! That will keep you guys busy for a while.